sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Gauchos Tradicionais... Históricos...


Sentimento é assunto que não cabe discussão.  Vem-nos época, todavia, os hodiernos dias de setembro, eis que sempre desperta atenção manifestações “de amor ao pago” de parte do estado, o “meu estado”, Rio Grande do Sul.
                De uma parcela somente do estado, pois sim.
                Há boa parcela de rio-grandenses que permanece alheia ao Dia do Gaúcho, festividades, fora de tudo relacionado ao tradicionalismo, movimento/instituição/ideologia reinventada em Porto Alegre por um grupo de estudantes no ensino médio, da década de 40. Reinventado, que houve tentativa de criação de identidade regional anterior, no alvorecer do mesmo século, os clubes gaúchos, fundados pelo santa-mariense Cezimbra Jaques, um dos bons intelectos que a “raça já produziu” - como diria um bom positivista. - tendo por base as associações e sociedades de fomento à cultura alemã de então.


A quem se interessa por esses assuntos, (mesmo por quê quem não se interessa nunca se questiona em nada) há de se indagar, meio assim, quase velado para não insuflar um bate-boca, se aqueles que não aderem aos festejos do Dia do Gaúcho são menos “gaúchos” que a linha aderente ? Suporia que não, sem temer um erro feio.  Mas apostaria as bombachas que não tenho que as pessoas que não comemoram o 20 de Setembro não são tradicionalistas e isso não cerceia o gosto por uma identidade regional.


Ocorre que “ser gaúcho” e “ser tradicionalista” são circunstâncias distintas, ainda que para algum desavisado possam ser mesmíssima cousa. Contemporizando, na folha da adaga, os gaúchos já não existem mais.  A cultura gaúcha, da qual bebem os rio-grandenses, tradicionalistas ou não, persiste todo santo dia, transcendendo o regramento do MTG, no más. Por que cultura é movimento. A cultura gaúcha prossegue, levianita, impulsionada como que por duas voladoras, desde que solta na manicla do cotidiano dos rio-grandenses, e mesmo além, nos CTGs que campeiam o orbe. O próprio, deveras, MTG é “movimento” dessa ordem, por mais curioso que pareça, visto que também cultura em lato senso.

Poucos fenômenos seguem com tamanha conformidade a idéia do velho Heráclito quanto os fenômenos culturais. A impossibilidade de se atravessar o mesmo rio duas vezes é a mesma de dançar a mesma música, de forma idêntica, duas vezes; cevar o mate do mesmo modo, duas vezes; entonar da goela a mesma poesia, duas vezes. O momento particular impede a execução igual; regras e tabelas, antes uma vontade de exegese precisa, terminam por tornarem-se, na prática, apenas orientações de conduta. É a cultura, vento solto que não se curva às vontades. O pano da camisa, do lenço, como antes não se fabrica mais, a técnica da feitura da faca mudou. O cavalo deu lugar ao automóvel. Mais próximo das pessoas, eis a música nativista, talvez sempre o melhor estandarte da cultura rio-grandense. Quem pesquisa a música nativista percebe o quanto mudaram seus elementos, no toque do carro, desde os timbres à instrumentação musical. E não adianta dar com o cabo de relho na tchê music. As coisas mudam. Se não evoluem, apenas se transformam. Não permanecem as mesmas.

 

Por algum tempo, a inútil questão da diferença entre o gaúcho da tradição e o gaúcho histórico foi minha questão preferida. Inútil, sem dúvidas. Os “gaúchos tradicionais” não existiram no passado, “gaúchos históricos” até puderam existir, conforme aparenta, porém não mais existem por que as circunstâncias que os tornavam possíveis extinguiram-se com o tempo. A cultura gaúcha prossegue, contudo, viva e forte. E a ponto de suas peculiaridades, na banda de cá, fazerem surgir discussão sobre a validade das interpretações do outrora nativo sul-americano, el gaucho. Ora, os gaúchos tradicionais existem. São gaúchos. Os gaúchos históricos também existem, de acordo com o presente, mesmo não cultivando a Tradição do MTG, em tese. Cultura não freia. Parece hipótese extensa demais para um fenômeno regional limitado temporalmente, o dito gaúcho, e, deveras, há razoabilidade nesse argumento. Contraponho, afirmando, que a validade do proposto, com a convivência de ambos os modelos de gaúcho, leva em consideração a cultura gaúcha incessante, herdada e corrente, não apenas os aspectos do passado nem tão remoto. Outra, passa que os elementos da disputa, o gaúcho histórico, “verdadeiro”, e o gaúcho tradicionalista, “alegórico”, não parecem excluir-se de todo, ainda, quando se faz uso de uma observação mais utilitarista, a la Benthan e Mill. Ademais, surgem nas duas possibilidades do gaudério relações de continência e decorrência quando vislumbrados sob mesmo viés dinâmico do fenômeno cultural. Quer dizer, gaúcho tradicionalista contido, e parte, no gaúcho original, com atestado histórico.


O que, em verdade, é indubitável, o “amor ao pago” é um conceito próprio do MTG. Alguns dados a respeito desses primeiros habitantes europeizados do cone sul da América, do deserto, da gente gaudéria e haragana, lá dos idos das pulperias e gauchadas, informam que esses praticamente não mantinham conceito nenhum de nacionalidade na pampa extensa, até bem cerca do século XX. Vide a escrita produzida no Prata, século XIX, de Hidalgo a Hernandez. Mais além, o “amor ao Rio Grande”, que tanto serve às empresas interessadas na identificação produto-cliente “dos gaúchos”, encontra-se bem mais acerca dos ideais nacionalistas que assombraram a humanidade, na primeira metade do século passado. Pressupõe dizer que o “amor ao Rio Grande” não é histórico, mas uma característica recente da identidade regional, e bem recente, inserida na sociedade graças a força do tradicionalismo. Foi inserido, hoje faz parte dela, a ponto de compor a própria convicção do atual homem rio-grandense.
Enfim, e assumindo como verdade que sob um modo dinâmico de ver a cultura gaúcha, ambas as representações não sendo excludentes, resta, pois, a questão não tão inútil da discussão: quanto esse alegado “amor ao pago querido” influi no presente de cada rio-grandense? Qual o alcance de suas manifestações no dia-a-dia, na vida de cada um e do coletivo? Ao tomarmos como verdadeiro o processo cultural contínuo, também se toma a responsabilidade de que a identidade regional do gaúcho constrói-se no cotidiano e não apenas em um dia desfilando de bombacha. Ou só em casa, tomando mate, de uma janela segura, como se não tivesse nada a ver com isso.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Mais outra vinda de Nantucket


Já vencida e lida mais da metade do romance “Moby Dick”, de Herman Melville, a respeito de suas ”mil e umas interpretações possíveis”, posso afirmar que prefiro a mais material de todas.
É uma obra de aventura e conhecimento. Não é, todavia, única exclusivamente um texto sobre introversão ou autoconhecimento. Creio que Melville apostava na veracidade fictícia do ali narrado como um bom produto econômico e cultural, afinal, o próprio vivenciara a realidade também ali exposta, mesmo que contada na obra sob o cabresto da boa ficção. Ambicionava uma temática material e universal. No jugo da fantasia, mal ou bem, todos os fatos vividos  acercam-se do dever ser de cada autor, da imperiosa vontade do autor Afinal, eis por isso se chama literatura.

Penso que a interpretação mais válida do Moby Dick deva ser, em tese, a mais ingênua de todas: Acab (na minha tradução em português), ou Ahab, caçando sua baleia branca. As mais curiosas interpretações são sempre as psicanalíticas, e Moby Dick tem uma, que não nos apetece explicar. Tudo bem: cada interprete conforme suas leituras, que também o leitor é escravo da sua vontade. Reitero, todavia, que a melhor interpretação, entre as alegadas muitas da obra de Melville, deva ser: o homem atrás da sua baleia. O homem conduzindo a ferramenta, o engenho, percorrendo o vasto oceano atrás do seu largo cachalote. Acredito até, nessa altura do segundo tempo, contemporaneidade, considerar que o animal em questão, Moby Dick, tenha mais valor para Acab como símbolo, sua dura vingança, do que o interesse econômico no espermacete já é agua passada, figura fácil, vaga perdida, vista e revista, que nem condiz ser mencionada. Nesse começo de século, pois, matutar, em demasia, conjeturando sobre valores e dinheiro soa até como conversinha de primeiro semestre de qualquer graduação nas Humanas. Dinheiro é valor, valor é dinheiro, não importa a cor da baleia. Ou quem empunha o arpão. Na verdade, a maruja subiu a bordo pelo espermacete e não por revanche de capitão doidivanas nenhum. Ao que conste, somente quando ao convés, em momento de euforia, debaixo da gávea maior, que berrou  Acab: por Moby Dick! Melville prático até nesse ponto, narrando que outras baleias famigeradas também já tinham sido batizadas pelos marinheiros, reconhecidas quando encontradas no oceano, por sua astúcia em fugir da lança ou pelo tamanho. Ter um nome, no cotidiano dos navios pesqueiros, não foi privilégio apenas daquele “peixe” em particular. Bravo!

De toda a vela, eis lida mais da metade da obra.
Não tenho entendimento melhor que esse. É obra que deve ser interpretada da maneira mais “ingênua” e direta possível. É Acab contra a baleia, o homem atrás do valor, seja por quaisquer motivos. Não é a interpretação mais pobre, deveras, ainda que curta: é interpretar que permite apreciar toda a grandeza funcional e artística da obra em si, os pormenores da pesca baleeira, a peculiaridade dos homens, tempo e momento, da façanha. A caça à baleia, antes do século XX, enfim. Melville, entre muitas, narra fato dos marinheiros fazerem a barba no fio do arpão, a preparação de um bom bife de baleia. Qual interpretação melhor do que a pretendida pelo autor?