Já vencida e lida mais da metade do romance “Moby Dick”, de Herman Melville, a respeito de suas ”mil e umas interpretações possíveis”, posso afirmar que prefiro a mais material de todas.
É uma obra de aventura e conhecimento. Não é, todavia, única exclusivamente um texto sobre introversão ou autoconhecimento. Creio que Melville apostava na veracidade fictícia do ali narrado como um bom produto econômico e cultural, afinal, o próprio vivenciara a realidade também ali exposta, mesmo que contada na obra sob o cabresto da boa ficção. Ambicionava uma temática material e universal. No jugo da fantasia, mal ou bem, todos os fatos vividos acercam-se do dever ser de cada autor, da imperiosa vontade do autor Afinal, eis por isso se chama literatura.
Penso que a interpretação mais válida do Moby Dick deva ser, em tese, a mais ingênua de todas: Acab (na minha tradução em português), ou Ahab, caçando sua baleia branca. As mais curiosas interpretações são sempre as psicanalíticas, e Moby Dick tem uma, que não nos apetece explicar. Tudo bem: cada interprete conforme suas leituras, que também o leitor é escravo da sua vontade. Reitero, todavia, que a melhor interpretação, entre as alegadas muitas da obra de Melville, deva ser: o homem atrás da sua baleia. O homem conduzindo a ferramenta, o engenho, percorrendo o vasto oceano atrás do seu largo cachalote. Acredito até, nessa altura do segundo tempo, contemporaneidade, considerar que o animal em questão, Moby Dick, tenha mais valor para Acab como símbolo, sua dura vingança, do que o interesse econômico no espermacete já é agua passada, figura fácil, vaga perdida, vista e revista, que nem condiz ser mencionada. Nesse começo de século, pois, matutar, em demasia, conjeturando sobre valores e dinheiro soa até como conversinha de primeiro semestre de qualquer graduação nas Humanas. Dinheiro é valor, valor é dinheiro, não importa a cor da baleia. Ou quem empunha o arpão. Na verdade, a maruja subiu a bordo pelo espermacete e não por revanche de capitão doidivanas nenhum. Ao que conste, somente quando ao convés, em momento de euforia, debaixo da gávea maior, que berrou Acab: por Moby Dick! Melville prático até nesse ponto, narrando que outras baleias famigeradas também já tinham sido batizadas pelos marinheiros, reconhecidas quando encontradas no oceano, por sua astúcia em fugir da lança ou pelo tamanho. Ter um nome, no cotidiano dos navios pesqueiros, não foi privilégio apenas daquele “peixe” em particular. Bravo!
De toda a vela, eis lida mais da metade da obra.
Não tenho entendimento melhor que esse. É obra que deve ser interpretada da maneira mais “ingênua” e direta possível. É Acab contra a baleia, o homem atrás do valor, seja por quaisquer motivos. Não é a interpretação mais pobre, deveras, ainda que curta: é interpretar que permite apreciar toda a grandeza funcional e artística da obra em si, os pormenores da pesca baleeira, a peculiaridade dos homens, tempo e momento, da façanha. A caça à baleia, antes do século XX, enfim. Melville, entre muitas, narra fato dos marinheiros fazerem a barba no fio do arpão, a preparação de um bom bife de baleia. Qual interpretação melhor do que a pretendida pelo autor?




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