terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Sobre pardais...


Pardais não são aves impressionantes. Justo ao oposto: devem parecer o mais comum de todos os passarinhos, não em número, nem em qualidade, porém, na medida em que estão sempre sob os olhos humanos. E somente por isso. Pardais habitam as cidades, ao que conste, bem como ratos e baratas. Caminham, ou voam, ao que conste, ao lado o homem desde que o próprio desenvolveu a agricultura, e, por conseguinte, a civilização gregária como a conhecemos. Assim como ratos, baratas, cachorros, gatos, pombos, ovelhas... Mas o pássaro pardal não é ave domesticada, nem mesmo desperta qualquer interesse econômico ou sanitário. É bicho que veio junto com a inteligência humana, e que soube lucrar com essa na sua sobrevivência. Adaptou-se em uma ave urbana, envolta de cidade, bem mais fácil que campear solito borboletas, pelas duras pradarias do Oriente, de onde naturalmente originário.
Digo que não são impressionantes por que muito comuns, ao menos, nessa aparência. Se formos auferir, pelo campo das idéias, “passarinho”, o que vêm em mente é mais ou menos o formato de um pardal. No prático das cousas, um “passarinho” é o pardal. Eventualmente, ambos os campos podem vir a se tocar, mas é raro que ocorra, pois momentos fugazes como a queda de uma pena quando o que se pensa e o que é cruzam-se e completam-se.  O que vale, para a maioria, é a observação mais pragmática, sempre. Pois, então, a cidade tomada de passarinhos, pouco importa o que sejam, mesmo que, na bicada miúda, pardais quase todos sejam. De acordo com a região do orbe, variam os apelidos para essas aves, a mesma ave. Não nos cabe citá-los, tantos, apenas mencionar o fato, sugerindo quanto o passarinho é  cosmopolita. Viajou com as cidades, conforme essas fossem “mudando” no terreno. O bicho é vizinho miúdo e alarmista de muitas casas, vilas, habitações e populações rurais, por aí e acolá, desde que homem construa por perto.
O que for corriqueiro perde o valor, ainda que tenha serventia, bem sabe. Caiu nas mãos ou nos olhos, de pronto começa a depreciar. Não tem uma utilidade, então, perde valor. Ou inexiste. Os passarinhos urbanos não servem para nada, detalhes barulhentos escapam da vista, a cada instante. Os ratos são maus, transportam doenças. Mas os pardais, que mal ou bem? Nenhum, a princípio. Voam para lá e cá, penas ao longe, chilreando, cada um com seu problema na ponta do bico. Não tem importância. Fossem águias que revirassem o lixo, em um rasante catando um gafanhoto, pusessem ninho num beiral de escritório, haveria de ter mais importância. Mas que ave de rapina é essa que saqueia o dejeto? Haveria de se tornar menos águia e mais pardal.
O olhar pragmático traz em si duas questões que o fulminam: a primeira, a presunção de certeza absoluta, o pragmatismo sempre se julga o certo; a segunda, o imediatismo dos meios de decisão. Certamente, há pontos outros que podem ser debatidos sobre observações pragmáticas, através desses dois significantes já dá para ter uma noção sobre por que razão essas aves não são importantes. Deveras, tudo nesse texto, nesta visada, não tem importância, mensurado por tal régua! O pragmatismo é uma parreira de falácias saborosas, na maior parte do tempo, se a causa for um pouco mais de domínio racional sobre o objeto, o melhor é fazer declarar logo essa maneira tida como prática de ver o mundo como senso comum – como de fato o é, no mais das vezes.
Analisando as aves longe desse viés pragmático, assim também retomando a importância desse texto, considera-se que falso, a principio, afirmar que os pardais sejam comuns em abundância. As avezinhas feias seguem o homem, e, em que pese o aumento da densidade urbana, o conjunto maior do espaço-terra não é habitável por gente, ao menos, por esses lados do planeta. A partir disso, cabe dizer, de saída, é observação superficial desvalorizá-las por um suposto excesso de presença dos bichinhos: há deles em número elevado só aos olhos da cidade, na natureza máter, são incomuns. É uma falsa aparência ser uma ave comum, no todo inteiro das aves, aliás, outra falsidade que habita nas cidades. As cidades, bem como o pragmatismo e senso comum que as rege, desde o fio à lâmpada, são também excelentes pés de inverdades. A saber, parece que o homem fundou a cidade como um modo de escorrer à fora de si as ilusões constantes; tudo bem, não seja uma explicação que concorra ao materialismo, é uma hipótese que bem poderia ser considerada.
Escapando então do pragmatismo falacioso e da pouca valorização, por conta do exposto, os pardais são, sim, aves interessantíssimas.
Como dito, aproveitam-se das cidades, da inteligência humana. Ganharam a Terra, perseguindo e habitando as construções humanas; o seu processo evolutivo ocorreu acompanhando as modificações que o humano provoca no terreno. Poucos são os seres com essa peculiaridade, menos ainda aves. No espaço urbano, aproveitam-se das sobras da nossa fartura, fartam-se, o que não impede de paparem uma mariposa que facilite, talvez cegada pela luminosidade elétrica que produzimos em demasia. Deveras, a regra geral da relação homem/outros é que nós vencemos e matamos, sempre. Os pardais fazem a exceção, lucrando com seus bicos barulhentos e a máscara de assaltante de antigamente, que os do presente não mais protegem sua identidade. Talvez por isso, também, urbanidade, sejam pássaros agressivos com os seus e saqueadores dos ninhos dos outros. Na primavera, há de vê-los em suas ferozes escaramuças contra seus iguais, macho contra macho, como galos de rinha num cercado de tábuas. Uma vez, enquanto voltava da faculdade, caíram aos meus pés dois pardais brigantes, um agarrado ao outro, de gadanhos, não se soltaram nem na queda! Não possuindo esporão, valem-se daquelas garrinhas afiadas para brigar além do bico.  Foi quando respeitei essas pequenas criaturas. Parece ser o destino de tudo que há na cidade, fazer ferozes todas as suas presenças, mas isso não é bem verdade, que a natureza sempre foi e há de ser madrasta. Pardais conhecem a precisa extensão do alcance humano, vão ao chão, sabem a hora de alçar vôo, com um naco de pão no bico. Aves que são, tudo é urgente e decisivo, ocorrendo o tempo todo sobre a cabeça de seres que não tem asas, mas perdem-se no espaço em pensamentos e as vezes nem se dão conta o quanto são apressados. Ou sem pressa alguma. Ou vivos. Ou apenas parte dessa mesma cidade, enfim.







sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Gauchos Tradicionais... Históricos...


Sentimento é assunto que não cabe discussão.  Vem-nos época, todavia, os hodiernos dias de setembro, eis que sempre desperta atenção manifestações “de amor ao pago” de parte do estado, o “meu estado”, Rio Grande do Sul.
                De uma parcela somente do estado, pois sim.
                Há boa parcela de rio-grandenses que permanece alheia ao Dia do Gaúcho, festividades, fora de tudo relacionado ao tradicionalismo, movimento/instituição/ideologia reinventada em Porto Alegre por um grupo de estudantes no ensino médio, da década de 40. Reinventado, que houve tentativa de criação de identidade regional anterior, no alvorecer do mesmo século, os clubes gaúchos, fundados pelo santa-mariense Cezimbra Jaques, um dos bons intelectos que a “raça já produziu” - como diria um bom positivista. - tendo por base as associações e sociedades de fomento à cultura alemã de então.


A quem se interessa por esses assuntos, (mesmo por quê quem não se interessa nunca se questiona em nada) há de se indagar, meio assim, quase velado para não insuflar um bate-boca, se aqueles que não aderem aos festejos do Dia do Gaúcho são menos “gaúchos” que a linha aderente ? Suporia que não, sem temer um erro feio.  Mas apostaria as bombachas que não tenho que as pessoas que não comemoram o 20 de Setembro não são tradicionalistas e isso não cerceia o gosto por uma identidade regional.


Ocorre que “ser gaúcho” e “ser tradicionalista” são circunstâncias distintas, ainda que para algum desavisado possam ser mesmíssima cousa. Contemporizando, na folha da adaga, os gaúchos já não existem mais.  A cultura gaúcha, da qual bebem os rio-grandenses, tradicionalistas ou não, persiste todo santo dia, transcendendo o regramento do MTG, no más. Por que cultura é movimento. A cultura gaúcha prossegue, levianita, impulsionada como que por duas voladoras, desde que solta na manicla do cotidiano dos rio-grandenses, e mesmo além, nos CTGs que campeiam o orbe. O próprio, deveras, MTG é “movimento” dessa ordem, por mais curioso que pareça, visto que também cultura em lato senso.

Poucos fenômenos seguem com tamanha conformidade a idéia do velho Heráclito quanto os fenômenos culturais. A impossibilidade de se atravessar o mesmo rio duas vezes é a mesma de dançar a mesma música, de forma idêntica, duas vezes; cevar o mate do mesmo modo, duas vezes; entonar da goela a mesma poesia, duas vezes. O momento particular impede a execução igual; regras e tabelas, antes uma vontade de exegese precisa, terminam por tornarem-se, na prática, apenas orientações de conduta. É a cultura, vento solto que não se curva às vontades. O pano da camisa, do lenço, como antes não se fabrica mais, a técnica da feitura da faca mudou. O cavalo deu lugar ao automóvel. Mais próximo das pessoas, eis a música nativista, talvez sempre o melhor estandarte da cultura rio-grandense. Quem pesquisa a música nativista percebe o quanto mudaram seus elementos, no toque do carro, desde os timbres à instrumentação musical. E não adianta dar com o cabo de relho na tchê music. As coisas mudam. Se não evoluem, apenas se transformam. Não permanecem as mesmas.

 

Por algum tempo, a inútil questão da diferença entre o gaúcho da tradição e o gaúcho histórico foi minha questão preferida. Inútil, sem dúvidas. Os “gaúchos tradicionais” não existiram no passado, “gaúchos históricos” até puderam existir, conforme aparenta, porém não mais existem por que as circunstâncias que os tornavam possíveis extinguiram-se com o tempo. A cultura gaúcha prossegue, contudo, viva e forte. E a ponto de suas peculiaridades, na banda de cá, fazerem surgir discussão sobre a validade das interpretações do outrora nativo sul-americano, el gaucho. Ora, os gaúchos tradicionais existem. São gaúchos. Os gaúchos históricos também existem, de acordo com o presente, mesmo não cultivando a Tradição do MTG, em tese. Cultura não freia. Parece hipótese extensa demais para um fenômeno regional limitado temporalmente, o dito gaúcho, e, deveras, há razoabilidade nesse argumento. Contraponho, afirmando, que a validade do proposto, com a convivência de ambos os modelos de gaúcho, leva em consideração a cultura gaúcha incessante, herdada e corrente, não apenas os aspectos do passado nem tão remoto. Outra, passa que os elementos da disputa, o gaúcho histórico, “verdadeiro”, e o gaúcho tradicionalista, “alegórico”, não parecem excluir-se de todo, ainda, quando se faz uso de uma observação mais utilitarista, a la Benthan e Mill. Ademais, surgem nas duas possibilidades do gaudério relações de continência e decorrência quando vislumbrados sob mesmo viés dinâmico do fenômeno cultural. Quer dizer, gaúcho tradicionalista contido, e parte, no gaúcho original, com atestado histórico.


O que, em verdade, é indubitável, o “amor ao pago” é um conceito próprio do MTG. Alguns dados a respeito desses primeiros habitantes europeizados do cone sul da América, do deserto, da gente gaudéria e haragana, lá dos idos das pulperias e gauchadas, informam que esses praticamente não mantinham conceito nenhum de nacionalidade na pampa extensa, até bem cerca do século XX. Vide a escrita produzida no Prata, século XIX, de Hidalgo a Hernandez. Mais além, o “amor ao Rio Grande”, que tanto serve às empresas interessadas na identificação produto-cliente “dos gaúchos”, encontra-se bem mais acerca dos ideais nacionalistas que assombraram a humanidade, na primeira metade do século passado. Pressupõe dizer que o “amor ao Rio Grande” não é histórico, mas uma característica recente da identidade regional, e bem recente, inserida na sociedade graças a força do tradicionalismo. Foi inserido, hoje faz parte dela, a ponto de compor a própria convicção do atual homem rio-grandense.
Enfim, e assumindo como verdade que sob um modo dinâmico de ver a cultura gaúcha, ambas as representações não sendo excludentes, resta, pois, a questão não tão inútil da discussão: quanto esse alegado “amor ao pago querido” influi no presente de cada rio-grandense? Qual o alcance de suas manifestações no dia-a-dia, na vida de cada um e do coletivo? Ao tomarmos como verdadeiro o processo cultural contínuo, também se toma a responsabilidade de que a identidade regional do gaúcho constrói-se no cotidiano e não apenas em um dia desfilando de bombacha. Ou só em casa, tomando mate, de uma janela segura, como se não tivesse nada a ver com isso.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Mais outra vinda de Nantucket


Já vencida e lida mais da metade do romance “Moby Dick”, de Herman Melville, a respeito de suas ”mil e umas interpretações possíveis”, posso afirmar que prefiro a mais material de todas.
É uma obra de aventura e conhecimento. Não é, todavia, única exclusivamente um texto sobre introversão ou autoconhecimento. Creio que Melville apostava na veracidade fictícia do ali narrado como um bom produto econômico e cultural, afinal, o próprio vivenciara a realidade também ali exposta, mesmo que contada na obra sob o cabresto da boa ficção. Ambicionava uma temática material e universal. No jugo da fantasia, mal ou bem, todos os fatos vividos  acercam-se do dever ser de cada autor, da imperiosa vontade do autor Afinal, eis por isso se chama literatura.

Penso que a interpretação mais válida do Moby Dick deva ser, em tese, a mais ingênua de todas: Acab (na minha tradução em português), ou Ahab, caçando sua baleia branca. As mais curiosas interpretações são sempre as psicanalíticas, e Moby Dick tem uma, que não nos apetece explicar. Tudo bem: cada interprete conforme suas leituras, que também o leitor é escravo da sua vontade. Reitero, todavia, que a melhor interpretação, entre as alegadas muitas da obra de Melville, deva ser: o homem atrás da sua baleia. O homem conduzindo a ferramenta, o engenho, percorrendo o vasto oceano atrás do seu largo cachalote. Acredito até, nessa altura do segundo tempo, contemporaneidade, considerar que o animal em questão, Moby Dick, tenha mais valor para Acab como símbolo, sua dura vingança, do que o interesse econômico no espermacete já é agua passada, figura fácil, vaga perdida, vista e revista, que nem condiz ser mencionada. Nesse começo de século, pois, matutar, em demasia, conjeturando sobre valores e dinheiro soa até como conversinha de primeiro semestre de qualquer graduação nas Humanas. Dinheiro é valor, valor é dinheiro, não importa a cor da baleia. Ou quem empunha o arpão. Na verdade, a maruja subiu a bordo pelo espermacete e não por revanche de capitão doidivanas nenhum. Ao que conste, somente quando ao convés, em momento de euforia, debaixo da gávea maior, que berrou  Acab: por Moby Dick! Melville prático até nesse ponto, narrando que outras baleias famigeradas também já tinham sido batizadas pelos marinheiros, reconhecidas quando encontradas no oceano, por sua astúcia em fugir da lança ou pelo tamanho. Ter um nome, no cotidiano dos navios pesqueiros, não foi privilégio apenas daquele “peixe” em particular. Bravo!

De toda a vela, eis lida mais da metade da obra.
Não tenho entendimento melhor que esse. É obra que deve ser interpretada da maneira mais “ingênua” e direta possível. É Acab contra a baleia, o homem atrás do valor, seja por quaisquer motivos. Não é a interpretação mais pobre, deveras, ainda que curta: é interpretar que permite apreciar toda a grandeza funcional e artística da obra em si, os pormenores da pesca baleeira, a peculiaridade dos homens, tempo e momento, da façanha. A caça à baleia, antes do século XX, enfim. Melville, entre muitas, narra fato dos marinheiros fazerem a barba no fio do arpão, a preparação de um bom bife de baleia. Qual interpretação melhor do que a pretendida pelo autor? 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Recomeçando...


Pois bem, a história paralela a “Eu amei uma borderline”, “Os dias de Déborazinha”, quase totalmente escrita.

Ainda assim, como desagravo de consciência, fiz um release da parte já escrita e mandei para as editoras que se propõe a receber originais. Parece bizarro mandar um original nem acabado para uma editora, mas conforme conheça como a banda toca no meio, se se interessarem entram em contato. A condição “se”, é, deveras, toda a  partitura. Como canso de dizer, não tenho paciência para o mercado editorial, e menos ainda com essa coisa toda, identidade de escritor e afins. De toda a forma, um aplauso as editoras que se permitem receber originais. A grande maioria come na mão de agentes literários. Tudo bem, o dinheiro e o risco do negócio são deles, portanto, cada faça como melhor lhe caber!

                 A parte que nos toca, um trecho de “os dias de Déborazinha”:

 “Tomar no ouvido as indecências e gestos lascivos prescritos na etilia. Os ébrios, quando nascem bagaceiras, são como sogras e mães, não calam a boca nunca. São capazes de prolatar toda sorte de impropérios no ouvido da mocinha que tenta passar, e isso de não ter respeito tem pouco a ver com sobriedade ou condição de estudantes. Homem, sem modos, nasce bagaço ou faz-se em casa. É como cão atrás do próprio rabo. Sabe que suas ações são inúteis, mas ali o rabo, então persegue: toda sua lascívia no inútil gesto de perseguir. Bagaceira é triste. Cachorro comedor de ovelha só matando. As moças tentando passam, ele ali passando a mão, falando tudo que besteira, e rindo, felizão da vida, bagaço. Mas é multidão de estudantes, dentro do porão, rua brasileira às seis da tarde, hora do rush: ninguém se move e todo mundo dança. Festa. Como vagão de metrô, todo mundo encoxa todo mundo. Os apertados, no vagão, sabem aonde vão. Já os universitários bêbados, bem... “
Não dá nada.




                “Os dias de Déborazinha” acontecem nas entrelinhas de “ Eu amei uma borderline”



               



Actum est.