Pardais não são aves impressionantes. Justo ao oposto: devem parecer o mais comum de todos os passarinhos, não em número, nem em qualidade, porém, na medida em que estão sempre sob os olhos humanos. E somente por isso. Pardais habitam as cidades, ao que conste, bem como ratos e baratas. Caminham, ou voam, ao que conste, ao lado o homem desde que o próprio desenvolveu a agricultura, e, por conseguinte, a civilização gregária como a conhecemos. Assim como ratos, baratas, cachorros, gatos, pombos, ovelhas... Mas o pássaro pardal não é ave domesticada, nem mesmo desperta qualquer interesse econômico ou sanitário. É bicho que veio junto com a inteligência humana, e que soube lucrar com essa na sua sobrevivência. Adaptou-se em uma ave urbana, envolta de cidade, bem mais fácil que campear solito borboletas, pelas duras pradarias do Oriente, de onde naturalmente originário.
Digo que não são impressionantes por que muito comuns, ao menos, nessa aparência. Se formos auferir, pelo campo das idéias, “passarinho”, o que vêm em mente é mais ou menos o formato de um pardal. No prático das cousas, um “passarinho” é o pardal. Eventualmente, ambos os campos podem vir a se tocar, mas é raro que ocorra, pois momentos fugazes como a queda de uma pena quando o que se pensa e o que é cruzam-se e completam-se. O que vale, para a maioria, é a observação mais pragmática, sempre. Pois, então, a cidade tomada de passarinhos, pouco importa o que sejam, mesmo que, na bicada miúda, pardais quase todos sejam. De acordo com a região do orbe, variam os apelidos para essas aves, a mesma ave. Não nos cabe citá-los, tantos, apenas mencionar o fato, sugerindo quanto o passarinho é cosmopolita. Viajou com as cidades, conforme essas fossem “mudando” no terreno. O bicho é vizinho miúdo e alarmista de muitas casas, vilas, habitações e populações rurais, por aí e acolá, desde que homem construa por perto.
O que for corriqueiro perde o valor, ainda que tenha serventia, bem sabe. Caiu nas mãos ou nos olhos, de pronto começa a depreciar. Não tem uma utilidade, então, perde valor. Ou inexiste. Os passarinhos urbanos não servem para nada, detalhes barulhentos escapam da vista, a cada instante. Os ratos são maus, transportam doenças. Mas os pardais, que mal ou bem? Nenhum, a princípio. Voam para lá e cá, penas ao longe, chilreando, cada um com seu problema na ponta do bico. Não tem importância. Fossem águias que revirassem o lixo, em um rasante catando um gafanhoto, pusessem ninho num beiral de escritório, haveria de ter mais importância. Mas que ave de rapina é essa que saqueia o dejeto? Haveria de se tornar menos águia e mais pardal.
O olhar pragmático traz em si duas questões que o fulminam: a primeira, a presunção de certeza absoluta, o pragmatismo sempre se julga o certo; a segunda, o imediatismo dos meios de decisão. Certamente, há pontos outros que podem ser debatidos sobre observações pragmáticas, através desses dois significantes já dá para ter uma noção sobre por que razão essas aves não são importantes. Deveras, tudo nesse texto, nesta visada, não tem importância, mensurado por tal régua! O pragmatismo é uma parreira de falácias saborosas, na maior parte do tempo, se a causa for um pouco mais de domínio racional sobre o objeto, o melhor é fazer declarar logo essa maneira tida como prática de ver o mundo como senso comum – como de fato o é, no mais das vezes.
Analisando as aves longe desse viés pragmático, assim também retomando a importância desse texto, considera-se que falso, a principio, afirmar que os pardais sejam comuns em abundância. As avezinhas feias seguem o homem, e, em que pese o aumento da densidade urbana, o conjunto maior do espaço-terra não é habitável por gente, ao menos, por esses lados do planeta. A partir disso, cabe dizer, de saída, é observação superficial desvalorizá-las por um suposto excesso de presença dos bichinhos: há deles em número elevado só aos olhos da cidade, na natureza máter, são incomuns. É uma falsa aparência ser uma ave comum, no todo inteiro das aves, aliás, outra falsidade que habita nas cidades. As cidades, bem como o pragmatismo e senso comum que as rege, desde o fio à lâmpada, são também excelentes pés de inverdades. A saber, parece que o homem fundou a cidade como um modo de escorrer à fora de si as ilusões constantes; tudo bem, não seja uma explicação que concorra ao materialismo, é uma hipótese que bem poderia ser considerada.
Escapando então do pragmatismo falacioso e da pouca valorização, por conta do exposto, os pardais são, sim, aves interessantíssimas.
Como dito, aproveitam-se das cidades, da inteligência humana. Ganharam a Terra, perseguindo e habitando as construções humanas; o seu processo evolutivo ocorreu acompanhando as modificações que o humano provoca no terreno. Poucos são os seres com essa peculiaridade, menos ainda aves. No espaço urbano, aproveitam-se das sobras da nossa fartura, fartam-se, o que não impede de paparem uma mariposa que facilite, talvez cegada pela luminosidade elétrica que produzimos em demasia. Deveras, a regra geral da relação homem/outros é que nós vencemos e matamos, sempre. Os pardais fazem a exceção, lucrando com seus bicos barulhentos e a máscara de assaltante de antigamente, que os do presente não mais protegem sua identidade. Talvez por isso, também, urbanidade, sejam pássaros agressivos com os seus e saqueadores dos ninhos dos outros. Na primavera, há de vê-los em suas ferozes escaramuças contra seus iguais, macho contra macho, como galos de rinha num cercado de tábuas. Uma vez, enquanto voltava da faculdade, caíram aos meus pés dois pardais brigantes, um agarrado ao outro, de gadanhos, não se soltaram nem na queda! Não possuindo esporão, valem-se daquelas garrinhas afiadas para brigar além do bico. Foi quando respeitei essas pequenas criaturas. Parece ser o destino de tudo que há na cidade, fazer ferozes todas as suas presenças, mas isso não é bem verdade, que a natureza sempre foi e há de ser madrasta. Pardais conhecem a precisa extensão do alcance humano, vão ao chão, sabem a hora de alçar vôo, com um naco de pão no bico. Aves que são, tudo é urgente e decisivo, ocorrendo o tempo todo sobre a cabeça de seres que não tem asas, mas perdem-se no espaço em pensamentos e as vezes nem se dão conta o quanto são apressados. Ou sem pressa alguma. Ou vivos. Ou apenas parte dessa mesma cidade, enfim.











